Eu não sou assim
Martha Medeiros
Se você já percorreu um bom caminho, construiu uma vida digna e conhece a si mesma melhor do que ninguém, não precisa se moldar a mais nada
Quando você estiver discutindo com o amor da sua vida, adotando um tom alto demais porque p recisa que ele entenda o tamanho do desespero que está sentindo, quando você, aos gritos, começar a trazer à tona coisas que ele fez muito tempo atrás a fim de incluí-las na sua argumentação, quando só lhe restarem palavrões na boca, quando você sentir que está perden do a razão e também a compostura, acalme-se e diga para si mesmo: "Eu nao sou assim".
Se você não é barraqueira e nunca foi deselegante, contenha-se. É triste ter que se afastar tanto de si mesmo a fim de manter alguém próximo. Dei xe-o ir, então. Ele partirá de qualquer jeito. Fique em você mesma.
Quando estiver dizendo coisas que não tem vontade de dizer, quando sentir que está assumindo um personagem apenas porque é isso que a sua plateia está exigindo, quando você não reconhecer a autenticidade da própria voz, cale-se e pense: "Eu não sou assim". Certamente a pessoa que está com você não deseja você, apenas alguém que você é capaz de interpretar. Deixe-a partir, se ela não se satisfaz com sua naturalidade, e simplesmente mantenha-se em si.
Quando você for impelida a trair porque não está mais vivendo a vida que sonhou, quando for induzida a mentir para que a casa não caia, quando sentir-se obrigada a arranjar desculpas para disfarçar o próprio desejo, pergunte-se: sou assim? Ar dilosa, falsa, camuflada? Se não é assim, se nunca foi assim, melhor enfrentar a verdade, como fazem os corajosos.
Quando você estiver num local que não lhe agrada, conversando com pessoas que não admira, rindo forçadamente de piadas que lhe soam grosseiras, quando estiver prometen do visitas que sabe que não fará, sub metendo-se a situações bizarras ou vexatórias, escute o que seu descon forto está alertando: "Eu não sou as sim". Muitas vezes, especialmente no início da idade adulta, temos que nos adequar a certas contingências sociais se delas depende nossa sobrevivência, mas se você já percorreu um bom caminho, construiu uma vida digna e conhece a si mesma melhor do que ninguém, não precisa se moldar a mais nada, conquistou o direito de ser integralmente quem é.
Quando você estiver sendo con descendente sem receber em troca o carinho que merece, quando você perceber-se desacomodada no que deveria ser aconchegante, quando sentir que está se adaptando com dificuldade ao que não lhe convém, tente perceber se está sendo educada ou se está sendo submissa - não são sinônimos. Educação é básico, mas não exige docilidade fingida nem ser vilismo humilhante. Pegue sua bolsa e tome o rumo de casa sempre que estiver escutando de si mesma: "Eu não sou assim".
A não ser que você seja.
Domingo, 18 de outubro de 2015.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.